Joca: Um Conto de Natal Jordanense

Nós esquilos crescemos ouvindo das corujas no mato uma história antiga sobre os primórdios de Campos do Jordão, mas cujos efeitos reverberam até hoje na nossa pequena urbe interiorana:

Tudo começou quando o Oyaguara, aventureiro intrépido da Serra da Mantiqueira, cansado de um dia de exploração, sentou-se sobre uma rocha arredondada,  na região que hoje é Abernéssia para comer seu almoço de carnes frias e frutas.  Comeu e bebeu tranquilamente debaixo da sombra de uma Araucária que ficava num local que hoje seria bem atrás do local onde hoje fica a Casa do Pão de Queijo.

Terminada a refeição, cochilou sobre a relva por alguns minutos ao som do burburinho de nosso pequeno rio que corre ao longo do vale que hoje forma a ligação entre as nossas 3 Vilas.

Mas não teve tempo para dormir e sonhar e coisa e tal  pois era um homem de atividade e não de descansos prolongados.  Apressado ele jogou os restos de alimentos que trazia no rio, ficou de pé e aliviou-se no rio, mirando sua urina ludicamente num pequeno sapo que saltitava sobre as pedras musgosas no seu leito.

Dessa forma o Oyaguara inaugurou uma longa e pouco valorosa tradição de jordanenses e visitantes de se utilizarem da generosidade indefesa das águas de nossos rios como depósito de dejetos e, vamos direto ao ponto, de urina e de fezes.

Acontece que nesse mesmo momento vinha passando por aquele lugar na mata o Curupira que indignado com a crueza da cena assobiou um assobio de frequência tão alta que só a Cuca ouviria mas que passou desapercebido pelo Oyaguara que seguiu ajeitando suas calças e depois selando sua mula de carga.

Nesse entremeio a Cuca chegou voando e aterrissou em frente ao nosso herói explorador, furiosa como só ela, e castigou nosso proto-poluidor com um passe que seria carregado por todas as gerações futuras que ocupassem esse alto da Serra da Mantiqueira:

Bakbaê do Cabiqué,

Ouça a voz desta mulher,

O homem pensa mas não reflete,

Ensine algo à essa peste !

Bakbaê do Cabiqué,

Ouça a voz dessa mulher,

Sem freios tudo há de ruir

E de nosso mundo o equilíbrio assim partir !

Bakbaê do Cabiqué,

Ouça a voz dessa mulher,

Puna com critério e severidade

Mas com porta de saída – antes da eternidade !

Nesse momento uma voz se fez ouvir dos céus, mais alta e retumbante do que o caminhão de som do Ivo Eventos, e pronunciou gravemente:

Então que seja assim.  Essa região será de 3 Vilas.  Cada qual a seu estilo.  E uma trilha as ligará para irem e virem as pessoas como quiserem.  Em cada Vila florescerá beleza e alegria e iniciativa.  E isso será bom e belo.  Porém – porém !  Uma maldição pairará sobre seus habitantes, enquanto seus rios não souberem respeitar.

Será a maldição da separação e do isolamento.  A maldição que tudo limita e que fertiliza a discórdia, a inveja e a frustração.  Assim, aonde houver virtude num lugar, essa virtude ali ficará.  Sem cooperar, sem compartilhar, sem se interessar por que mais houver nas outras Vilas nem na sua vizinhança.

As meninas do coro não frequentarão os recitais de música dos jovens talentos. Os jovens talentos não darão aulas para os alunos de música da cidade.  Os alunos de música da cidade não assistirão aos ballets.  Os bailarinos e bailarinas não frequentarão o Festival de Inverno.  Os alunos das escolas não irão à biblioteca.  Não haverá fertilização, cooperação, interesse compartilhado.  Cada um cuidará de si e será assim por muito se muitos anos.

E a Cuca feliz com a medida, mas inquieta para saber detalhes mais conclusivos então indagou:

Bakbaê do Cabiqué,

Responda à indagação dessa mulher:

O que há essa gente de fazer

Para essa maldição bem resolver ?

E a voz respondeu:

Esse dia chegará quando além de pensar essa gente do Oyaguara for capaz de refletir.  E então investirão somas maiores do que todas as cargas de ouro que passam por essa trilhas nos lombos dos burros hoje, para fazer desse rio o que ele sempre foi: um fluxo de vida, pura, livre, transparente e fonte de alegria, beleza e tranquilidade para seres humanos, peixes, pássaros, répteis e todas as formas de vida de que o Curupira tão bem cuida.

Mas atente que esse dia tradará muito a chegar.  Todas as paciências e perseveranças serão testadas.  Muitas palavras vãs serão arremessadas.  Mas a verdade e a beleza prevalecerão.

E essa é a forma de as corujas explicam para nós esquilos e nosso amigos da mata a razão pela qual os rios de Campos do Jordão cheiram como cheiram e acumulam caixotes e garrafas e sacos e madeira e pedações de carro velho e muito xixi e cocô.

E nós ficamos aqui na fé de que a voz retumbante esteja certa da vitória final da verdade e da beleza.  Porque nos indivíduos e nos pequenos grupos há muito virtude em Campos do Jordão.

Basta que a sociedade perceba seu valor como um grande grupo, que compartilhe seus interesses, seus recursos, suas ideias e seus sonhos.  E que a Sabesp agora faça sua parte também.

Uma resposta para “Joca: Um Conto de Natal Jordanense”

  1. Paulo André Porto Bilyk Disse:

    Que bela história garoto !

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