A Londres que me inspira em Campos do Jordão

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joca-ingles1Todos os anos nesse feriado de Páscoa eu recebo uma longa carta de meu primo Inglês Harold. Ele vive numa praça particular no meio de uma quadra de prédios brancos de estilo Vitoriano em South Kensington em Londres – Cromwell Gardens é o nome exato do lugar. A primavera é muito importante para eles por lá. As cerejeiras explodem em cor, as magnólias se abrem frondosas e até as margaridas salpicam a grama que volta ao seu verde de antes do outono. O céu de Londres fica mais azul, as pessoas mudam suas roupas e estréiam camisetas e saias. Harold me disse que as crianças agora adoram um patinete de 3 rodas – azul para os meninos e rosa para as meninas. São exímios equilibristas mesmo os mais jovenzinhos e somem na frente de seus pais no caminho da escola ou das lojas. Todos os anos Harold insiste que eu faça uma viagem para vê-lo por lá e conhecer sua casa na cerejeira branca bem na frente da casinha do jardineiro no canto da praça. E todos os anos eu lhe respondo que prefiro saber de Londres assim mesmo, através de suas cartas. Sou epistolar por natureza. Um Edward FitzGerald roedor ! Prefiro essa Londres mágica e imaginária que construí na minha cabecinha e que eu posso guardar aqui comigo na floresta de araucárias ao lado do Palácio. FitzGerald nunca esteve na Pérsia e traduziu o Rubayat de Omar Khayam para o Inglês numa obra que tem toda uma vida própria. Minha Londres é Jordanense. Quando penso no Rubayat de FitzGerald penso também numa igreja de pedra num vilarejo, em pequenos morrotes verdes com carneiros brancos pastando. Penso num homem com chapéu e terno passando numa bicicleta em frente à lojinha do correio. Um dia escreverei de minha Londres Jordanense que tem cheiro de mato e sons de água que cascateiam. A cada ano que passa percebo que o ímpeto juvenil de viajar dá lugar em mim a uma vontade de cuidar de pequenas coisas ao meu redor. Mantendo sempre minha correspondência carinhosa com meus amigos e minha família. É possível transportar-nos tão distante e aventurar-se corajosamente sem tanto se mover. Por isso Harold fico por aqui mesmo em Campos do Jordão – no máximo dando meus pulinhos a São Paulo e ao Rio de Janeiro no parachoque do carro de um amigo. Amo tanto esse meu lugar no mundo que é Campos do Jordão. E suas cartas da Páscoa são uma expectativa toda especial todos os anos. Com suas descrições dessa cidade heróica, estóica, bela e absurdamente plural do outro lado do mundo. Lendo suas cartas eu entendo melhor minha cidade, compreendo nossas diferenças. Aprecio assim melhor suas respectivas virtudes. E vou sonhando com a cidade de Campos que podemos deixar para os que vierem depois de nós.

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