Um esquilo em Paraty: “entre Dawkins e Schama fico com Karen Armstrong”

8, Julho 2009 by blogdojocaame

Tem algo que reverbera da fala do Richard Dawkins para mim que não fica bem.  Talvez seja a certeza imperial que ele tem das virtudes da razão.  Ou então a superioridade pessoal que emana de sua crítica avassaladora à fé em Deus e às religiões.  Sua mente tem uma competência fabulosa de articular relações de causa e efeito, de construir argumentos claros e bem informados, de erguer uma cosmogonia materialista que é convincente e até apaixonante.  Infelizmente, porém, ele se deixou apaixonar por suas próprias virtudes.  Debate como quem olha para um espelho.  Tem uma unilateralidade totalitária que não condiz com uma reserva cética que a própria razão e a maturidade sugerem.  Simon Schama também me deixou angustiado.  Decepcionado quem sabe.  Seus livros são eruditos, bem pesquisados e originais na linguagem.  Mas pessoalmente ele foi na Flip quase um fanfarrão.  Muitos gestos e palavras soltas.  Um autor em busca de minutos de estrelato.  Não foi o homem sóbrio e relevante que imaginei que seria.

Sou mais a Karen Armstrong.  Menos vaidade.  Nada mais.

Meninas Cantoras estréiam em grande estilo no Claudio Santoro

2, Julho 2009 by blogdojocaame

Domingo passado estive ao lado de casa no auditório para assistir à estréia das Meninas Cantora de Campos do Jordão.  Eu, as cantoras, alguns cantores, suas famílias, muito público e um número respeitável de delinqüentes de todas as idades.  Já explico.  Eram 8 da noite e o frio estava a toda.  Todo mundo vestia casacos, cachecóis e gorros (os delinqüentes especialmente gostam de gorros).  Um jovem do Rio de Janeiro heroicamente se instalou na nossa cidade e empreitou esse projeto na cara e coragem.  Levantou fundos com empresas locais (bravo !), selecionou alunas e alunos promissores da rede pública (com apoio da secretaria municipal de educação) e ensaiou parcos seis meses antes dessa noite de estréia.  Foi lindo.  E emocionante também.  Esse rapaz vale ouro.  Dá para ver em seu sorriso e sua forma de mover-se no palco.  É honesto, discreto e sabe o que está fazendo.  As meninas e meninos que cantaram deram um show, considerando é claro o tempo de preparo que tiveram.  Estão no nível de um bom coro de um colégio particular de alto nível internacional digamos.  Mas podem muito mais.  Mal posso esperar para ver como vão evoluir.

Sobre delinqüentes.  Atesto que são criados desde jovens, fruto da liberdade de ação que lhes dão os pais.  Mais do que liberdade, apoio e carinho.  Um pequeno de 4 anos faz estrela no carpete enquanto o coral canta.  Os pais lhe abraçam e beijam.  Uma menina de 8 anos salta de uma cadeira a outra e fala em voz alta aos pais enquanto o coral canta.  Os pais respondem em voz alta e abraçam e beijam a menina.  Um grupo de adolescentes meninos e meninas fala, comenta, ri e até grita enquanto o coral canta.  Não há pais para os abraçarem e beijarem mas nessa idade já têm autoconfiança suficiente para serem os delinqüentes que foram preparados para ser, independentes e felizes.  Com seus gorros enfiados nas suas cabeças.  Sei bem como curar esse mal: convidemos esses jovens a vir mais e mais e mais ao auditório e ouvir o coral de meninas.  A cada recital um pequenino vírus lhes invadirá com a mensagem indestrutível da cultura e dos valores estéticos.  É infalível.  Com ou sem gorro.

Jornalistas, Doutos Professores e o Ensino pela Web

20, Junho 2009 by blogdojocaame

Os jornais do Brasil inteiro estão comendo uma barriga sem igual. Imagine só, no tema dessa mega-greve na USP, eles dizem que há 3 reivindicações. Até aí tudo bem. As primeiras duas são sobre pagamentos e dinheiro e coisas que esquilos não entendem por que a gente não ganha salário nem nada. Mas a terceira, segundo esse jornais ineptos, é um pedido de cancelamento, suspensão, aniquilação, encerramento, sei lá de uma iniciativa de ensino à distância pela internet que a USP está empreendendo. Agora vejam só. Você acha que algum professor da melhor universidade do Brasil poderia em sã consciência ser contra o ensino pela web ? Essa gente toda super bem preparada, que lê e sabe da importância do estudo, que se preocupa com a evolução educacional nos cantos mais remotos do país por que sabem que aprender é prosperar, você acha que seria possível algum desses professores serem contra colocar esse conteúdo de ensino que a USP tem na web para muito mais gente poder acessar ? Esse jornalistas não têm noção do ridículo que escrevem à solta por aí ? O MIT já colocou todo seu curriculum aberto no seu site na web. As universidades nos EUA estão se estapeando para serem as que oferecem os melhores cursos pela web. Quem nesse mundo pode por um segundo pensar que nossos acadêmicos não estão compartilhando desse orgasmo democrático educacional que a internet está promovendo pelo mundo ? Façam me um favor.

Thoreau teve também sua casa no campo

29, Maio 2009 by blogdojocaame

Antes do Zé Rodrix de quem falei carinhosamente no meu post abaixo, que sempre quis e teve sua casa no campo foi Henry David Thoreau. Nós esquilos com um viés pelo pensamento abstrato sentimos uma identidade forte com Thoreau e seus colegas transcendentalistas Norte-Americanos. Ralph Waldo Emerson é outro no mesmo caminho. É difícil encontrar humanos que saibam tanto das verdades que nós esquilos sabemos ser verdades. São sempre as mais simples. E que são obscurecidas para vocês que andam pelas cidades e compram e correm e competem e acumulam. Ossos do ofício. É o contraponto do benefício da razão. Como esquilos gostamos muito também do Tao Te Ching de Lao Tse. Li em Inglês (tradução de Jane English) quando ainda era adolescente e em rebuliço interno. “He who goes against the way of nature comes to an early end.” Todo esquilo sabe disso desde que nasce. E finalmente aprendí recentemente a gostar muito do Paramahansa Yogananda. Conseguiu uma síntese oriente-ocidente usando Jesus e o Novo testamento especialmente como ponte que acho tão útil para trazer vocês humanos de volta à paz de um mundo que foi também feito para vocês serem felizes nele. A despeito de seus esforços de permanentemente transformá-lo. Gosto do Rubaiyat comentado pelo Paramahansa Yogananda, usando a incrível tradução tão livre e reinterpretativa daquele britânico vitoriano solteiro mas nunca solitário, curioso e cuidadosamente profundo, Edward FitzGerald. FitzGerald, como nós esquilos, não gostava de viajar. Mas aprendeu Persa. Leu muito e escreveu cartas a amigos maravilhosamente interessantes que formam um compêndio epistolar íntimo e cheio de provocações sobre como viver em paz consigo mesmo e com o mundo em nossa volta.

Hoje é isso. Zé Rodrix, Thoreau, Emerson, Lao tse, Paramahansa Yogananda, Jesus Cristo e Edward Fitzgerald. Um pouco de tudo que aproxima nós esquilos de vocês humanos. Sempre houve algo deles todos em Campos do Jordão, apesar de não ter notícia de qualquer um deles ter estado aqui fisicamente. Mas para quem já leu “Autobiografia de um Yogi” sabe que isso é mero detalhe.

Zé Rodrix e seu Rock Rural

23, Maio 2009 by blogdojocaame

Zé Rodrix morreu. Que triste. Adorava sua música. Um homem que tinha um jeito alegre e despretensioso mas que construiu uma estética musical toda própria e originalmente brasileira. “Casa no Campo” (com Tavito), “Soy Latino Americano” e “Mestre Jonas” são tão autênticas expressões do nosso país e do jeito de vocês humanos por aqui serem e pensarem. Tem escracho, absurdo, ideal, ingenuidade e embalo, tudo embrulhado num pacote só. Esse Zé Rodrix poderia ter sido esquilo. Acho que era isso o que ele dizia ao pedir uma casa no campo. Eu tenho a minha aqui na araucária. Devemos todos nos lembrar dele, de Sá e Guarabira, da Elis Regina e do Edu Lobo (com quem performou o clássico “Ponteio”). Porque são emblemas legítimos de nossa cultura popular (me incluí aí no meio por liberalidade…). Coisa fina de verdade.

Tarundú é vitória do empreendedorismo persistente

8, Maio 2009 by blogdojocaame

Eu sei que é caro e tal e que é mais para os turistas etc etc, mas eu tenho a maior admiração pelo Tarundú. Cada ano que eu dou um pulinho lá para visitar o Hotel Toriba (notem a homenagem ao meu bisavô Toríbio da Araucária que foi entalhado em todas as madeiras das varandas do prédio do hotel – ele era amigo íntimo do engenheiro Luiz Villares) fico encantado com as evoluções no Tarundú que fica logo ao lado e pertence à mesma família Lens Cezar. Eles devem ser muito empreendedores por que estão sempre adicionando um brinquedo ou atração nova para o público. E as atividades são ao ar livre, em cima da grama, debaixo de árvores, ao lado do bosque. Tem aquelas cadeiras e mesas para os visitantes sentarem e conversarem debaixo do céu azul. Tem a casa central feita de madeira rústica e vidro. Agora tem uma pista de patinação no gelo super bem organizada e dentro de um galpão todo bem feito em madeira também. Tem cavalos e pôneis. Tem um monte de coisas aventurescas para fazer com cordas e bolhas e roldanas e tal. Enfim, eu acho o Tarundú um exemplo que trabalho sério, persistência e criatividade geram prosperidade em Campos do Jordão também.

Finalmente a Invasão de Crianças no Auditório no Domingo!

27, Abril 2009 by blogdojocaame

Parecia até um sonho. Carros e mais carros parados no estacionamento na frente do auditório esse domingo de manhã. Micro-onibus, vans e até um ônibus grandão. Uma fila comprida e colorida de meninos, meninas, pais e professores na entrada do auditório Cláudio Santoro. Todo mundo lá para assistir a peça Rapunzel. Nem podia acreditar. Quase chorei de alegria ! Sempre torço para mais gente aparecer aqui perto de casa nesse evento tão legal que ocorre todos os domingos de manhã. Eis que o dia chegou. Minhas preces foram atendidas. Por aquela vidraça ao lado do teatro que fica sem cortina eu pude ver que mais da metade da platéia estava tomada por crianças cheias de antecipação e energia. Como eu torço para elas virem sempre aqui. Depois da peça eu ainda acompanhei uma menina loirinha de São Paulo e seu amiguinho Jordanense de cabelo preto que pulavam em torno das esculturas abstratas de Felicia Leirner e inventavam histórias sobre suas razões de ser, suas funções e origens: uma casa de crianças ! Um monstro com a barriga aberta ! Ele mora no bairro do Torto ! Não, no bairro do Zé da Rosa ! O céu estava daquele azul perfeito como só se vê na Mantiqueira. O vento meio geladinho. As pupas das ex lagartixas e futuras borboletas por toda parte nos galhos e nas paredes. Nota 10 tudo isso. A menina e o menino ainda levaram de presente uma camiseta recheada de pinhões. Eu até andava meio chororó, nem sei por que, mas fiquei outro esquilo depois da manhã teatral com as crianças todas no auditório esse domingo.

Aonde foram parar as luzes de alerta no Portal de Campos do Jordão?

22, Abril 2009 by blogdojocaame

Ouví um boato no meio animal sobre as luzes azuis e vermelhas que piscavam no Portal de Campos do Jordão até muito recentemente. Dizem os entendidos que as luzes eram um objeto de desejo de vários empresários do mundo da noite, dentro e fora do Brasil. Discotecas de Ibiza, Búzios, Punta del Este e Moscou disputaram a tapas a aquisição do objeto que teria sido removido de forma misteriosa e repentina de seu local de funcionamento, a despeito do enorme apreço que a comunidade Jordanense e turística tinha por ele. Resulta que através de um encadeamento de informações transmitidas por aves migratórias, fomos informados que as luzes piscantes teriam sido instaladas num inferninho subterrâneo de Tókio no bairro de Guinza — e lá estariam operando até hoje não fora por um acidente que levou ao seu confisco pela polícia local. Adolescentes que freqüentam uma matinê no mesmo local teriam sofrido surtos psicóticos e desmaios na pista de dança quando submetidos à frenética dança das cores da iluminação. Talvez por terem uma constituição física mais frágil do que nós habitantes das montanhas, ou talvez por não estarem como nós acostumados à luz ofuscante do hemisfério sul, os japoneses sucumbiram à energia estroboscópica de nosso querido farol de alerta na entrada da cidade. Digam-me se alguém tem comprovação desses fatos perturbadores por favor.

A Londres que me inspira em Campos do Jordão

15, Abril 2009 by blogdojocaame

joca-ingles1Todos os anos nesse feriado de Páscoa eu recebo uma longa carta de meu primo Inglês Harold. Ele vive numa praça particular no meio de uma quadra de prédios brancos de estilo Vitoriano em South Kensington em Londres – Cromwell Gardens é o nome exato do lugar. A primavera é muito importante para eles por lá. As cerejeiras explodem em cor, as magnólias se abrem frondosas e até as margaridas salpicam a grama que volta ao seu verde de antes do outono. O céu de Londres fica mais azul, as pessoas mudam suas roupas e estréiam camisetas e saias. Harold me disse que as crianças agora adoram um patinete de 3 rodas – azul para os meninos e rosa para as meninas. São exímios equilibristas mesmo os mais jovenzinhos e somem na frente de seus pais no caminho da escola ou das lojas. Todos os anos Harold insiste que eu faça uma viagem para vê-lo por lá e conhecer sua casa na cerejeira branca bem na frente da casinha do jardineiro no canto da praça. E todos os anos eu lhe respondo que prefiro saber de Londres assim mesmo, através de suas cartas. Sou epistolar por natureza. Um Edward FitzGerald roedor ! Prefiro essa Londres mágica e imaginária que construí na minha cabecinha e que eu posso guardar aqui comigo na floresta de araucárias ao lado do Palácio. FitzGerald nunca esteve na Pérsia e traduziu o Rubayat de Omar Khayam para o Inglês numa obra que tem toda uma vida própria. Minha Londres é Jordanense. Quando penso no Rubayat de FitzGerald penso também numa igreja de pedra num vilarejo, em pequenos morrotes verdes com carneiros brancos pastando. Penso num homem com chapéu e terno passando numa bicicleta em frente à lojinha do correio. Um dia escreverei de minha Londres Jordanense que tem cheiro de mato e sons de água que cascateiam. A cada ano que passa percebo que o ímpeto juvenil de viajar dá lugar em mim a uma vontade de cuidar de pequenas coisas ao meu redor. Mantendo sempre minha correspondência carinhosa com meus amigos e minha família. É possível transportar-nos tão distante e aventurar-se corajosamente sem tanto se mover. Por isso Harold fico por aqui mesmo em Campos do Jordão – no máximo dando meus pulinhos a São Paulo e ao Rio de Janeiro no parachoque do carro de um amigo. Amo tanto esse meu lugar no mundo que é Campos do Jordão. E suas cartas da Páscoa são uma expectativa toda especial todos os anos. Com suas descrições dessa cidade heróica, estóica, bela e absurdamente plural do outro lado do mundo. Lendo suas cartas eu entendo melhor minha cidade, compreendo nossas diferenças. Aprecio assim melhor suas respectivas virtudes. E vou sonhando com a cidade de Campos que podemos deixar para os que vierem depois de nós.

O que é mesmo ser Humano?

27, Março 2009 by blogdojocaame

Enigmáticos vocês humanos. Tão imprevisíveis e, aos nossos olhos animais, tão extremados. São capazes do sublime e do desastroso, tudo num só dia. Nós esquilos somos sempre tão consistentes. Pensei em como mostrar isso a vocês usando a web e seus recursos aparentemente infinitos – também ela tão emblemática da capacidade de criar e destruir que só vocês parecem ter. Montei essa pequena seqüência abaixo numa primeira série de momentos que mostram a capacidade humana de superação e perseverança (Ayrton Senna), sensibilidade e erudição (Kissin e Karajan), fé e compaixão (Karen Armstrong) e por último disciplina e relacionamento com outros seres vivos (Beerbaum e Ratina Z). Assistam e depois eu mostro outros extremos do que vocês (e só vocês) são capazes. E depois vocês me explicam.